Unidade Africana: 6 décadas depois da “All-African People’s Conference”

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Precisamente há 60 anos o grande Kwame Nkrumah organizara uma tremenda conferência, no Gana, visando discutir a situação do continente Africano face ao colonialismo e traçar caminhos de uma total independência. Na altura pouquíssimos Estados Africanos eram independentes! O jugo colonial estava omnipresente no cotidiano das Africanas e Africanos. 

Aquele evento, chamado “All-African People’s Conference”, constitui um marco para o povo Africano, uma vez que o sentido político que ele carregou/carrega é incomensurável. Depois de vários congressos pan-Africanos, particularmente o de 1945, ocorrido em Manchester, realizados todos nas cidades europeias, tinha chegado o momento do Pan-Africanismo “voltar para casa”. Essas últimas palavras foram proferidas pelo Nkrumah na ocasião da “All-African…”.

60 anos depois, que significado carrega aquele evento? Qual o lugar do Pan-Africanismo no contexto das atuais lutas Africanas (pensando no continente e na diáspora)? Como confrontar a nova corrida à África, alavancada tanto por potências tradicionalmente colonizadores como pelos “soft power”? Como construir uma política de Unidade Africana, baseada na relação das massas populares Africanas?

Estas questões e tantas outras estiveram na base da necessidade de se celebrar (politicamente) os 60 anos daquela histórica conferência. Não se trata simplesmente de celebrar, de forma acrítica, um evento, por mais marcante que tenha sido! Trata-se, porém, de dar conta do peso histórico e político que “All-African People’s Conference” carrega, assim como ver a sua atualidade. É preciso afirmar, de forma explícita, que os anseios que motivaram Nkrumah a organizar um encontro daquela magnitude continuam ainda vivos e, praticamente, inalterados.

Vamos a alguns exemplos práticos: o continente continua sendo vítima de toda forma de exploração e opressão, por parte das potências estrangeiras e dos próprios regimes “africanos”; o povo Africano, no continente, permanece com uma vida precária, material e imaterialmente; Africanas e Africanos na nossa extensa diáspora continuam a confrontar cotidianamente com as diversas violências herdadas da escravatura, colonialismo e, atualmente, do processo de globalitarismo; nosso povo ainda está buscando mecanismos de sair do continente, mesmo que a própria integridade física seja posta em risco: morrendo afogado no Mediterrâneo, humilhado nas “selvas” europeias ou escravizado e vendido na Líbia; os regimes políticos instalados no continente, desde o início das independências, continuam a servir a todos menos ao povo Africano; a esperança da massa juvenil Africana permanece bastante baixa…

Diante disto tudo, nota-se que o combate por uma total e efetiva libertação torna-se mais necessária do que em 1958. O Pan-Africanismo parece-nos mais importante do que foi durante o século passado. Africa Must Unite deverá ser visto como uma missão para nossa geração, ao invés de um mero slogan. As orientações, políticas, espirituais e intelectuais, deixadas pelos ancestrais merecem uma atualização e aplicabilidade permanentes.

Passados 60 anos, o Gana foi novamente “palco” de um grande encontro de pan-Africanistas de todo mundo. Precisamente durante os mesmos dias, 8 a 13 de dezembro, que em 1958, a África e o seu povo foi centro de uma série de momentos de reflexão, debates, trocas, construções coletivas e projeção de lutas para hoje e amanhã.

Dois eventos aconteceram em simultâneo: a celebração dos 60 anos da conferência organizada pelo Nkrumah e o Pré-congresso do Movimento Federalista Pan-Africano. Não poderia haver uma “combinação” melhor! Esta combinação representa a renovação do espírito que carregava Nkrumah, a de ver uma África (Global) unida e livre. A mesma vontade que dominava a África em 1958, hoje continua viva…

O evento que ocorreu nos dias 8 a 13 de dezembro, do corrente ano, já entra para história. Além de celebrar um evento histórico, ele representa a convicção que as Africanas e Africanos têm de continuarem a ser sujeitos da própria história. Amílcar Cabral considerava que a luta de libertação visava recuperar a personalidade histórica dos povos Africanos. É precisamente esta mesma ambição que permanece viva em cada uma e cada um que marcou presença no evento.

Durante os seis dias de intenso trabalho em prol da libertação Africana, envolveram-se figuras de quatro canto do continente, assim como uma presença massiva da diáspora. De forma simples: tratou-se de um encontro de Africanas e Africanos de todo mundo! Continente e diáspora não foram tratados nem hierarquicamente nem dicotomicamente. Falou-se, isso sim, da ampla Família Africana Global. O projeto político a ser construído terá de espelhar a situação global do nosso povo.

Maior aprendizado que trago do Gana é aquele que recebi depois de várias conversas com o gigante A. Peter Bailey. (Bailey foi um irmão próximo do nosso ancestral Malcolm X. Foi um dos fundadores da Organização de Unidade Africana-Americana.) Ele é perentório ao falar sobre a situação de África: não há outra alternativa/opção, ou nos uniremos, construindo uma força continental ou continuaremos sendo objetos de todas as formas de exploração, desumanização e violência.

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